Bruno Volpato

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Bruno Volpato

Exímio guitarrista e vocalista, fundou nos anos 60 a banda Captain Dick & His Pubes, na qual experimentou o sucesso, a mescalina e a cozinha vegetariana. Nos anos 70, saiu em carreira solo com o álbum "Shaved", que fracassou, levando-o à depressão e ao suicídio. Reencarnou em 1982 e, para desespero dos biógrafos espíritas, segue uma enfadonha carreira jornalística não-remunerada.

E-mail de Bruno Volpato

Quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Eu receberia as piores notícias das teclas do seu computador

Sei tudo o que pensam meus amigos. Sei o que andam fazendo, como vão seus empregos e seus relacionamentos. Sei que filmes viram recentemente e a que shows irão nos próximos meses. Sei tudo isso, mas não me sento a uma mesa com quase nenhum deles para almoçar ou tomar uma cerveja há muito tempo, nem mesmo com aqueles que considero mais próximos. Devo agradecer ao Facebook por me manter informado sobre meus grandes amigos, já que não tenho tido tempo para encontrá-los? Provavelmente, mas não consigo curtir isso.

O botãozinho de “curtir” virou o último recurso – e talvez o mais pobre – da manutenção de relacionamentos. Descobrimos que um amigo está namorando ou que fez uma viagem para um lugar incrível e, ao curtirmos a foto ou vídeo postado sobre o fato, damos um sinal de que estamos cientes e felizes pela novidade. Fica por isso, no máximo repercutimos meses mais tarde, em um encontro fortuito, na linha do “e aquela sua foto lá em Paris, hein, que lugar”. E às vezes o amigo nem se lembra da foto, claro, um mero detalhe de um passeio inesquecível.

Nos tempos da falta de tempo, talvez devêssemos mesmo louvar o Facebook por ajudar-nos a compartilhar alegrias, conquistas e boas ideias. Mas e quando se trata da tristeza? Nas horas em que as pessoas sentem a necessidade de buscar apoio no silêncio das redes sociais, vemos a falta que o contato humano nos faz. É cada vez mais comum testemunharmos o luto de pessoas queridas, que muitas vezes nos comovem com frases e fotos lindas daqueles que as deixaram. O que fazemos? Curtimos, como se disséssemos “estou aqui, amigo”, quando na verdade não estamos.

A tragédia de Santa Maria, que levou embora 235 jovens, teve um caso emblemático, extremo. Uma jovem postou em seu perfil quatro palavras, que acabariam sendo seu epitáfio: “incêndio na KISS. Socorro.” Amigos pediram mais notícias e novas postagens, que nunca vieram. Uma versão virtual de parentes e amigos cercando uma pessoa doente em uma cama, esperando um suspiro, um gemido, uma palavra, enfim, um sinal de vida. Graças ao Facebook, milhões puderam estar em volta daquela cama esperando que Michele abrisse os olhos e dissesse, num linguajar eletrônico, mais quatro palavras: “eu tô BEM. Escapei”.

Talvez tenhamos que recomeçar aos poucos. Um telefonema para um grande amigo, um velho romance ou alguém que nos ama muito, mas a quem não damos muita atenção. Quem sabe levar menos trabalho para casa, parar de jantar com o smartphone na mão ou guardarmos nossos sentimentos para serem divididos em um almoço ou uma mesa de bar. Na tristeza, procurar um ombro de verdade para recostar a cabeça e olhos também reais que chorem junto conosco ao vermos fotos de papel. No fim, podemos, quem sabe, resgatar a conversa, a expressão de sentimentos, a troca e as risadas em conjunto. Nada de “kkkkk” ou “rsrsrs”.

Se os 235 de Santa Maria têm algo a nos ensinar é que, ao contrário deles, não seremos jovens para sempre. Temos o dever para com eles de vivermos cada segundo de verdade, no mundo real, com todos aqueles que amamos. Não é difícil: basta desligar este computador à sua frente e começar.

Comentários

  1. Bruno
    do olho do furacão [direto de santa maria] posso dizer: acertou em cheio. inda mais nós que somos [somos?] da comunicação. olho-no-olho, sorriso ao vivo em tempo real, abraços apertados, tapinhas nas costas.
    essa tragédia, soma de muitos erros/equívocos/crimes, que nos matou um pouquinho a todos [muito poucos moradores daqui não têm alguém a lamentar], tem de servir para ensinar coisas: menos jeitinho, menos corrupção, menos passividade e mais, muito mais humanidade.
    [ ]z

  2. Caro Bruno. Valho-me dessa tecnologia que nos embrutece e nos “superficializa” se é que assim posso escrever para dizer-te que faz tempo refuto sobre o assunto. Em minhas particulares teorias conspiratórias chego a conclusão de que este meio que agora utilizo nada mais é do que a “SOMA” de ALDOUS XURLEY, distribuida para sossegar a humanidade e emburrecê-la com propósitos claros de mantê-la sob controle. Lamento muito quando vejo qui neste espaço cibernético gente curtindo isso e aquilo contra o governo, contra o congresso e contra qualquer coisa…Na década de 70, estava na praça XV de novembro quando o Figueiredo levou umas bofetadas de jovens que não aceitavam o que estava rolando… Era afinal o nosso jeito de protestar, de buscar mudanças de forma efetiva. Hoje basta “CURTIR” ou “COMPARTILHAR” qualquer porcaria para se sentir participante de um movimento. Temo pelo futuro da espécie que quando acordar -tomara que isso aconteça- talvez seja tarde demais.

  3. Bruno, vamo tomar umas cervejinhas presenciais aqui em Santamtônio? Tou no Gambarzeira hj…tem Ensaio do Baiacu e td mais. \o/ Pelas 21h.

    Foi o q pensei dps de ler esse texto

    abrazzz do Frank (amigo virtual)

  4. Esse texto faz efeito, hein?
    Foi ler e passar a mão no telefone – nada mais justo do que ligar pra dizer que “curti”, de verdade!
    Me emocionei com sua sensibilidade, mesmo com um assunto tão batido e explorado, deu pra SENTIR que pra você não foi apenas um gancho para um texto genial!
    Parabéns e… nos vemos no sushi hoje à noite! 😉

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